MEUS AMIGOS (AS), O ARTIGO QUE AQUI ESTÁ POSTADO É PORQUE PORTUGAL É MINHA SEGUNDA PÁTRIA, UM PAÍS LINDO, COM UM POVO ACOLHEDOR,TRABALHADOR,UM PAÍS QUE AMO DE CORAÇÃO.
UM PAÍS QUE TEM TUDO DE BOM, CLIMA, BELEZA, CULTURA,E NÃO É JUSTO O QUE ESTÃO FAZENDO COM PORUGAL E SEU DIGNO E HONRROSO POVO.
por Pedro Marques Lopes
O homem que inúmeras vezes apareceu perante os portugueses exigindo que se falasse verdade não falou verdade. O homem que afirmou solenemente que quem o acusava de condutas menos próprias na condução de alguns negócios particulares teria de nascer dez vezes para ser mais sério do que ele não foi sério. Deliberadamente, escondeu uma parte do que ganha. E não foi sério quando disse que não sabia quanto seria o valor total das suas pensões.
O homem frontal, que faz gala de que a sua vida seja um livro aberto, omitiu. Omitiu ou disse uma meia-verdade, que como toda a gente sabe é sempre uma redonda mentira, quando, sem um pingo de vergonha, fingiu ter de livre e espontânea vontade prescindido do seu salário como Presidente da República. Todos nós sabemos que lhe estava vedado por lei acumular as suas pensões com esse salário. Decidiu omitir que a escolha que fez foi entre receber cerca de dez mil euros mensais das reformas ou aproximadamente sete mil de salário.
Mas estou disposto a, pelo menos, negar parte do que acabo de escrever e admitir que, de facto, além de tudo isso, Cavaco Silva não consegue pagar as suas despesas, que dez mil euros não chegam para cobrir os seus gastos. Nesse caso tinha-nos enganado quando nos fez crer que era um homem austero e prudente nos seus investimentos, avesso a gastos desnecessários, que utilizava mantinhas em sua casa para não desperdiçar dinheiro em aquecimento central e que tinha um padrão de vida pautado pela contenção e sobriedade. É que, convenhamos, ganhar os tais dez mil euros somados aos oitocentos da sua mulher (será?), não pagar refeições, gasolina, telefones e demais despesas correntes, como é direito de um presidente da República, e, mesmo assim, não lhe sobrar dinheiro, é próprio de um verdadeiro estroina que anda para aí a deitar dinheiro à rua. Temo pelos seus seiscentos e cinquenta e um mil euros que até agora poupou e ainda conserva em vários bancos. Bom, não é que já não tivéssemos indícios de alguma negligência na condição das suas finanças. Como todos nos recordamos, Cavaco Silva comprou e vendeu acções da SLN, mas não sabia como o negócio tinha sido feito nem do que teria auferido em mais-valias.
O homem que se reclama do povo, que veio do povo, que sente que o povo está a escutar a sua mensagem, não tem pejo em dizer que só à custa das suas poupanças consegue sobreviver. Pois, não sei a que povo se está a referir. O povo que eu conheço não se indignará com os rendimentos dele, são fruto do seu trabalho e com certeza fez por os merecer. Não gostará é, estou certo, de que brinquem com ele. Não apreciará que um homem rico, e Cavaco Silva pelos padrões portugueses é um homem rico, insinue que está a fazer os mesmos sacrifícios que o povo a que diz pertencer.
É que esse povo é constituído por mais de seiscentos mil desempregados, por um milhão e meio de pessoas que trazem para casa quinhentos euros por mês, por trabalhadores por conta de outrem que ganham em média oitocentos euros mensais. Ninguém pediria ao Presidente da República que vivesse com oitocentos euros. Pedir-se-ia sim que compreendesse os sacrifícios, as terríveis condições de vida, a angústia dos que vivem desesperados por não verem perspectivas para os seus filhos e que se pusesse ao lado deles, que os guiasse para uma vida mais digna. Mas não, Cavaco Silva preferiu muito simplesmente gozar com o seu povo.
Pode ser, no entanto, pior. Às tantas, o político profissional com mais anos de carreira não conhece a real situação dos portugueses. O homem que foi eleito primeiro--ministro três vezes e Presidente da República duas, ignora como os cidadãos vivem. Nesse caso, o problema, infelizmente, não é dele, é nosso, pois temos votado num indivíduo que se está borrifando para nós e para a nossa vida.
Anteontem tive vergonha de ter votado algumas vezes neste senhor.
Cavaco e a síndrome de Maria Antonieta
O professor Aníbal Cavaco Silva está sempre a lembrar as suas "origens humildes" e fala, com frequência, dos tempos de jovem adulto, da vida disciplinada, de estudo e trabalho que iniciou o seu percurso. Inúmeras vezes ouvimo-lo distanciar-se da classe política, colocando-se sempre noutra classe de pessoas, apesar dos mais de 30 anos de participação activa, ao mais elevado nível, na condução dos destinos do país.
O Presidente da República está sempre a recordar-nos que é um homem do povo e procura, em todos os momentos, sublinhar o contacto que julga manter com as suas raízes "genuínas", tentando ligar-se a algo que terá deixado para trás há qualquer coisa como 50 anos. A descrição que este homem faz de si só próprio conhece apenas uma variação ao mote da raiz popular - o orgulho no percurso de académico e de economista, na esperança de obter o reconhecimento de entrada na classe dos sábios
Cavaco Silva não quer ser da classe política. Não quer ser da classe dos ricos. Não quer ser da classe dos poderosos. Não quer ser da classe burguesa. Não quer ser aristocrata. Quer ser da classe popular e da classe dos sábios. Mas, entretanto, passou 30 anos a pisar passadeiras vermelhas em palácios de todo o mundo, passou 30 anos a ver banqueiros, empresários, poetas, artistas, filósofos, políticos, músicos, nobres, outros falidos, jornalistas, professores, médicos, advogados, estadistas e todos os melhores representantes de todas as classes superiores a desfilar à sua frente, ouvindo-o, curvando-se, bajulando-o, adorando-o. Passou 30 anos a conquistar e a usar o poder. A infância de Boliqueime ficou tão longe...
Cavaco Silva fala muitas vezes em nome do povo, das sua dificuldades, das suas misérias, solidário. Mas, à razão de 10 mil euros por mês, não consegue já ver o povo. Não é um problema de carácter ou de falta de honestidade intelectual. Cavaco perdeu-se de si próprio, entre as saudades da sua origem e o orgulho da sua conquista. Cavaco perdeu, classicamente, a consciência de classe.
Diz o mito que Maria Antonieta, rainha de França, respondera, sobranceira, a um pedido de pão feito por pobres: "Não têm pão? Comam brioches". Diz a história que isto não se passou, que ela até se preocupava genuinamente com os miseráveis das ruas, vislumbrados do alto da sua carruagem, mas que a Revolução Francesa, a raiz da democracia, se construiu também em cima dessa discrição de arrogância cínica, ignorante, mais tarde vingada a golpe de guilhotina.
Cavaco Silva sofre da síndrome de Maria Antonieta... Nas ruas, ouvem-se gritos...
por PEDRO TADEU
Fonte: Recebido por e-mail

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